Um mergulho no Sagrado Feminino

Conversamos com Helena de Arádia, alta sacerdotisa à frente da casa Bosque de Arthêmis, no Rio, sobre a prática de cura e reconexão que ganha cada vez mais adeptxs no mundo

12.07.2018  |  Por: Crib Tanaka

image
Um mergulho no Sagrado Feminino

Fotos de divulgação

Acompanhe as lunações. Honre a Mãe Terra. Dê voz às suas ancestrais. Há um ano esses assuntos e frases começaram a aparecer na minha frente e, com eles, convites para palestras e encontros de mulheres em torno do Sagrado Feminino. Mas, e o que é o Sagrado Feminino? Para entender mais sobre esse universo, conversei com Helena de Arádia, alta sacerdotisa à frente da casa Bosque de Arthêmis, em Niterói (RJ), casa dedicada ao estilo de vida que vem despertando curiosidade e está sendo adotado por muitas mulheres.

“O Sagrado Feminino é uma prática de vida associada a um culto de agradecimento e fé. Os principais preceitos estão relacionados à união com a natureza, seus ciclos e sua força, para que possamos nos alinhar a essa matriz energética e iniciar um movimento harmonioso e integrado às outras formas de vidas que habitam a Terra, criando uma ressonância com o planeta”, explica Helena, que pratica o Sagrado há 31 anos.

Helena de Arádia

Ao contrário do que pode parecer (por estar agora tanto em evidência), a prática não é nova. Estima-se que vem do período Paleolítico, por conta de achados arqueológicos. Sabe aquelas estatuetas de Vênus, supercheias de curvas? Elas são um dos sinais de adoração ao feminino, assim como outros indícios de cerimônias na época praticadas. Indo bem mais para a frente no tempo, há séculos vivemos o patriarcado e, com todas as censuras e caça às bruxas desse sistema, muito do respeito pela mulher se perdeu.

Energias feminina e masculina: equilíbrio e busca de identidade

Pensando no foco das ritualísticas, pergunto a Helena quais são as diferenças entre as energias masculina e feminina, complementares e presentes em todos.

“O feminino é uma força de formas cíclicas, sinuosas, e seus predicados são a fé, a perseverança, a transmutação de situações e formas. A energia masculina é regada de ação, enfrentamento frente ao novo. Há uma sintonia entre essas energias, onde o prumo da balança se mantém em perfeita harmonia e sem hipervalorização de uma de suas partes.” Mas, vale ressaltar: “As energias masculina e feminina não têm referência no sexo biológico”, ela explica, lembrando que trans são bem-vindos nos círculos femininos, pois reconhecem-se no social, íntimo e emocional com o sexo oposto do biológico. “Não estamos mergulhando no desejo amoroso de relacionamento, mas na visualização do seu corpo, alma e mente”, elucida Helena.

Hoje, o Bosque de Arthêmis soma 80 mulheres ativas e cerca de 30 presentes em cada evento, todo fim de semana. Helena acredita que o boom recente em torno do assunto se deve à busca crescente do que é verdadeiro e essencial, em meio a tanta velocidade e excesso de informação que podem camuflar a real identidade de cada pessoa. Os encontros, independentes, giram em torno de temas como ervas, ciclos menstruais, percepções corporais e emocionais, sempre respeitando a natureza, em busca da cura da ancestralidade e fortalecimento pessoal. De 2017 para cá, a sacerdotisa esteve na Europa e no México, reunindo mais de 200 mulheres em diversas cidades. Fico curiosa para saber se ela sentiu diferença nos sentimentos e preocupações compartilhados, de acordo com as regiões onde esteve.

Diferentes países, diferentes sentimentos?

“Percebo que no Brasil as mulheres têm muita relação com o corpo, a forma perfeita e a idade. Mulheres fora do padrão imposto pela sociedade ou que já ultrapassaram 40 anos tendem a ser colocadas à margem nas relações, o que causa uma eterna frustração feminina. Já as mulheres mexicanas carregam uma mágoa grande do abandono, em vários âmbitos, dentre eles o fato de as crianças começarem a trabalhar com idades muito tenras, não tendo o sentimento de aconchego, cuidado. Nos países que visitei na Europa percebi o mesmo padrão feminino: na Itália e Holanda, os corpos caminham, sem saber qual direção e sentido. Se perguntar a uma europeia se o que ela realiza profissionalmente é o que ela deseja, se ela está feliz e qual o sentido da vida para ela, não há resposta. Só silêncio. Elas preenchem tanto a agenda de compromissos, que não conseguem tempo para projetar, sentir e viver. Entretanto, ao longo do mundo, o feminino está procurando sua cura, sua regeneração, seu lugar.”

O futuro então é delas? “O futuro, o passado, o presente e o planeta. Todos nós pisamos em um corpo feminino.”

Crib Tanaka é jornalista e escritora e comanda o projeto Reflete 

0 Comentários

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *