Um papo com Margalit Fox, a célebre obituarista do ‘New York Times’

'A ênfase editorial não é a morte, mas vivências extraordinárias, muitas vezes desconhecidas', diz a escritora, que acaba de se despedir do jornal depois de 14 anos dedicados à editoria que já rendeu dois livros e um documentário

05.12.2018  |  Por: Gaia Passarelli

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Um papo com Margalit Fox, a célebre obituarista do ‘New York Times’

A escritora Margalit Fox teve a rara oportunidade de escrever o próprio obituário. Não de sua morte, mas de sua saída do The New York Times, onde esteve por 24 anos, 14 deles na editoria de obituários, aquela parte do jornal onde estão anunciadas as mortes de pessoas – célebres ou não – de interesse público.

Isso foi mês passado. Logo na sequência Margalit lançou seu terceiro livro (Conan Doyle for the Defense, uma história real de crime que envolve o célebre criador do Sherlock Holmes), começou a trabalhar na pesquisa de seu próximo projeto e veio ao Brasil a convite do Festival Piauí e GloboNews de Jornalismo, que aconteceu neste começo de dezembro em São Paulo.

Foto: divulgação

Margalit Fox em São Paulo

Interessante e interessada, Margalit veio falar especificamente sobre o nicho do jornalismo que é a seção de óbitos. E ela tem muito a dizer. Os obituários do célebre jornal norte-americano são tão especiais que estão compilados em dois livros (Book of the Dead e The Last Word) e são tema do documentário Obit, exibido em São Paulo em sessão única no Instituto Moreira Salles dois dias antes de Margalit subir ao palco no festival.

Em Obit, a jovem documentarista Vanessa Gould se propôs a encarar a difícil missão de mostrar ao mundo como é trabalhar numa redação todos os dias. “Quando Vanessa me procurou para falar sobre seu documentário eu tentei demove-la da idéia,” conta Margalit. “Disse que, veja bem, são apenas pessoas escrevendo em computadores e falando ao telefone, não é muito cênico.” E e é verdade.

Mas também é muito mais do que isso, e Vanessa tem talento para tirar arte de temas pouco explorados. Seu primeiro documentário, Between the Foldsé sobre origami. “Mas não aquele tipo de dobraduras de flores que fazíamos na escola, e sim sobre artistas capazes de fazer um rinoceronte com uma folha de papel gigante, explica Margalit.

Between The Folds, lançado em 2008, acabou sendo a causa do encontro entre a documentarista e a escritora. Um dos artistas retratados no documentário de origami, Eric Joisel, morreu pouco após o lançamento e Vanessa queria que ele tivesse um reconhecimento público. “Enviei um pequeno anúncio para diversos jornais de língua inglesa e o único que respondeu foi o New York Times,” conta. “Foi um obituário bonito, com fotos dele e de seu trabalho, um registro histórico.” O cuidado com o texto e com as informações sobre Joisel fez com que Vanessa criasse interesse em acompanhar os obituários do New York Times, que, para ela, apontam “para uma incrível história humana, juntamente com contextos maiores de lugar e tempo, história e cultura”.

O obituário de Joisel foi obra de Margalit. “Como artista ele era exatamente o que um obituarista procura: uma pessoa que fez algo extraordinário,” conta.

“O obituário que eu escrevi sobre o Eric Joisel, um homem fascinante, foi em 2009. Vanessa precisou de mais de um ano para conseguir permissão do Times para filmar dentro da redação, o jornal é muito relutante em relação a isso. Não acho que foi a primeira vez, mas é muito raro isso acontecer, e Vanessa foi muito persistente. Eles diziam que não, ela deixava passar um tempo e pedia de novo, e insistiu repetidas vezes até conseguir um sim. A maior parte das filmagens dentro da redação aconteceram em 2014,” conta Margalit. O filme, lançado em 2016, mostra um dia de trabalho do time obituarista do NYT. A equipe fala sobre o tabu e a suposta falta de brilho ao redor da profissão.

Ninguém planeja se tornar obituarista, pelo menos não na minha idade, já foi uma profissão muito estigmatizada”, diz a escritora. Mas não precisa ser assim. A morte é uma parte muito pequena, talvez 1% da história. Como obituarista eu não preciso me aprofundar em como ou por que uma pessoa morreu, mas em como ela viveu.”

Para mim, o melhor que um obituário pode ser é uma janela para a história da sociedade

Escrevendo obituários de gente como o capista Sete Wolf, Naomi Parker (a Rosie the Riveter), o inventor dos flamingos de plástico Don Featherstone e a soprano Montserrat Caballé, num ritmo de uma pessoa por dia, Margalit lapidou um talento para contar histórias de não-ficção e usou a experiência para fazer o que sempre quis: ser escritora.

“Eu comecei no New York Times em 1994 como redatora do Sunday Book Review e fiz isso por dez anos antes de ir para a seção de obituários. Falo sobre isso na minha carta de despedida, foi um trabalho maravilhoso. Mas eu entrei para o jornalismo para treinar para me tornar uma escritora, e isso é difícil de realizar quando você está trabalhando diariamente num jornal de grande circulação. Então eu comecei a contribuir para o arquivo de advances da editoria de obituários. A necessidade de ter obituários avançados e atualizados sobre os mais diferentes tipos de pessoas é tão imensa que o jornal pede que todo mundo contribua,” explica. “E eu percebi que não queria ser apenas redatora ao longo da minha carreira. Eu escrevi advances por quase nove anos, inclusive de pessoas que ainda estão vivas, até entrar para a equipe em definitivo.”

Margalit concorda que o espaço que o jornal dá à sessão de óbitos ajudou a mudar a cara da profissão. Em um dos melhores momentos do documentário, um obituarista lê um trecho do obituário de sua bisavó publicado em um jornal local. É um texto floreado e pomposo que dá diversas voltas para contar que a senhorinha morreu. Um dos pontos principais dos óbitos do NYT é não florear o assunto: morte é morte e eles usam apenas a palavra “dead”. O foco é acuidade histórica mas é possível, no meio da informação, usar de certa poesia e até mesmo (acredite!) alguma dose homeopática e sensível de humor. Mas o mais importante não muda: informação.

“Checar fatos para obituários pode ser a dor de nossa existência. É o gênero mais retrospectivo de jornalismo. Muitas vezes estamos escrevendo sobre eventos que aconteceram há 50 anos, às vezes mais. Contamos com depoimentos de pessoas que estavam lá, que conheceram nossos assuntos, mas essas pessoas também têm problemas de memória, ou uma lembrança pessoal do que realmente aconteceu.” Além disso, um bom obituarista precisa ser capaz de entender rapidamente um tema com o qual não está familiarizado. “Nós sempre precisamos entender para poder explicar para os leitores de forma que eles também entendam. Em primeiro lugar: o que essa pessoa fez; em segundo lugar: por que isso é importante no contexto de desenvolvimento do seu campo”, explica. Para mim, o melhor que um obituário pode ser é uma janela para a história da sociedade.”

Outra mudança essencial é a crescente variedade de personagens históricos relatados. Obituários são dedicados a personagens célebres por alguma coisa — chefes de estado, artistas, cientistas, pessoas de profissões variadas que tenham realizado algo extraordinário em suas vidas. Dos personagens citados em Obit estão Eugene Polley, inventor do controle remoto, John Fairfax, aventureiro que atravessou o Pacífico a remo, David Foster Wallace, celebrado escritor de Graça Infinita, entre outros homens brancos relevantes em seus campos de atuação. Pessoas como Zelma Henderson, uma das figuras centrais do movimento de direitos civis nos Estados Unidos, são exceção na listagem de obituários do NYT, mas não por muito tempo.

“O que acontece é que estamos, na maior parte dos casos, escrevendo sobre pessoas que tiveram seus auges há 50 anos, às vezes mais. Quando eu comecei escrevíamos muito sobre personagens da Segunda Guerra Mundial, ou seja, homens brancos. Depois, da Guerra Fria e, de novo, homens brancos. Mas conforme o tempo avança nós estamos escrevendo mais e mais sobre pessoas que foram protagonistas dos movimentos de direitos civis, feministas, mulheres em posição de destaque em diferentes áreas.” Para Margalit, esse processo é contínuo e imparável.

Ela mesma uma figura relevante em seu campo de atuação, seja por sua excelente capacidade de contar uma história por dia, seja pela sua dedicação em mostrar o lado correto e factual, apaixonado e interessante dos obituários, escolheu o seguinte epitáfio para sua despedida do New York Times: “Ela mudou 50.000 vírgulas para ponto e vírgula.”

Gaía Passarelli é jornalista e escritora, autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016). Nascida e criada em São Paulo, mora num prédio velho da Bela Vista com o filho, três gatos e uma crescente coleção de guias de viagem. Você a encontra no twitter @gaiapassarelli e no site gaiapassarelli.com

1 Comentários

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Uma resposta para “Um papo com Margalit Fox, a célebre obituarista do ‘New York Times’”

  1. Beatriz Horta Horta disse:

    entrevistei o crítico literário agripinio grieco já bem velhinho para o advance no jornal do brasil. no final, ele insistiu em saber quando seria publicada a entrevista. como explicar?

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