Um pornô argentino nos cinemas brasileiros

O premiado 'As Filhas do Fogo' estreia em 18 salas quebrando padrões. 'O prazer sexual é tão inexorável quanto a própria Terra', diz a diretora em entrevista a Hysteria

14.03.2019  |  Por: Alice Galeffi

image
Um pornô argentino nos cinemas brasileiros

“Um gozo libertador.” É assim que Albertina Carri descreve o road movie pornô argentino As Filhas do Fogo, que estreia nesta quinta-feira em 18 salas brasileiras. Quebrando todos os padrões heteronormativos que regem o gênero, o longa circulou e foi premiado em festivais importantes mundo afora, como Bafici 2018, San Sebastián Film Festival, Festival de Roterdã, Festival do Rio e Festival Mix Brasil 2018, embora, claro, as grandes plataformas de mídias sociais insistam em censurá-lo. Com cenas eróticas explícitas, o filme mostra a história de três mulheres que começam uma jornada poliamorosa em busca de prazer, diversão e novas formas de se relacionar. Além da própria sexualidade, elas descobrem umas às outras, suas histórias, e  como juntas podem quebrar o opressivo sistema patriarcal. A seguir, a entrevista que fizemos com Albertina, idealizadora e diretora do filme.

As Filhas do fogo questiona padrões sexuais, eróticos e pornográficos. Qual foi sua principal motivação para fazer o filme? 

Foram muitas coisas. Mas uma das mais importantes é o desconforto que sempre senti com o gênero pornográfico. A falta de representação da minha subjetividade, e também de muitas das pessoas ao meu redor, me pegava. Por que esses corpos e essas imagens são sempre silenciados? Em nome de quê? Queria trazer o que sempre foi invisível na pornografia, fazer um filme que considerasse e celebrasse o nosso prazer. Porque o drama é uma das muitas formas de domesticação que o patriarcado nos impôs.

Como foi feito o casting do filme? Quem são essas mulheres e quais suas motivações? 

É importante dizer que o elenco é o próprio filme, porque são todas feministas militantes, muitas delas atrizes, outras não, mas todas compartilham a convicção de que outra pornografia é possível e necessária. Porque não podemos deixar o gozo nas mãos dos homens assim, de bandeja. Nós gostamos e queremos falar sobre isso. E essa é uma maneira de nos libertar dos estereótipos ao qual fomos aprisionadas no cinema.

O filme ganhou vários prêmios, mas foi proibido em muitas redes sociais. Como você enxerga esse crescente conservadorismo mundial?

Me parece que o conservadorismo está com medo e isso é um bom sinal. É lógico, eles não vão de uma hora para outra largar o poder que ocuparam por séculos. Lutarão com unhas e dentes. Mas me preocupo cada vez menos. Estou convencida de que eles são o último resquício de um sistema de opressão que já não é mais viável.

Você vem trabalhando com o tema pornografia, corpo e sexualidade há um tempo. Poderia nomear algumas diretoras ou filmes que lhe chamaram a atenção e influenciaram na filmagem?

Eu vejo pornografia desde que comecei a estudar cinema, e há uns 15 anos fiz um pequeno pornô com bonecas. Naquela época vi tudo que podia do pornô dos anos 60 e 70. E quando dirigi o Festival Internacional de Cinema Asterisco Iggtiq, tínhamos uma sessão pornô. Foi ali que comecei a ver pornô queer. Mas nunca encontrei em nenhum filme nada do imaginário de Filhas do Fogo, e acho que por isso quis fazê-lo; em homenagem também a essa revolução sexual dos anos 60.

O que define um filme como pornô? 

Para mim, a pornografia está mais relacionada com as telenovelas e com todo esse desperdício de sentimentalismo e domesticação do que com o próprio sexo explícito. No senso comum, o pornô está relacionado a uma forma de prazer hegemônica e binária. Qualquer história que saia dessas células parece não servir como pornografia, mas estou justamente interessada em continuar a chamar esse filme de pornô, porque é necessário instalar a ideia de que o prazer sexual é tão inexorável quanto a própria Terra. Proponho um pornô que não gere violência, que não viole imagens ou sons, que nos permita desfrutar de todos e de todas, do afeto, e não do desespero ou da raiva.

Mais que um road movie pornô, é possível dizer que Filhas do Fogo é um grito de liberdade contra o sistema hetero-católico-normativo?

Sim, definitivamente! É um grito de liberdade, embora eu goste de pensar mais como um gozo libertador.

Alice Galeffi é editora e diretora de arte. Dirige a editora Guarda-Chuva há seis anos, é cocriadora e designer da revista Nin e hoje faz mestrado em Tipografia e Editoração na Faculdade de Belas Artes de Lisboa

 

0 Comentários

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *