Uma mana infiltrada nas estradas brasileiras

Entre motoristas de caminhão com carteira assinada no Brasil, as mulheres não chegam a nem 1%. Acostumada a viajar pelas estradas do país cobrindo o segmento rodoviário, a jornalista Julia Fabri compartilha o que elas têm a dizer

04.12.2019  |  Por: Julia Fabri

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Uma mana infiltrada nas estradas brasileiras

Há cinco anos sou repórter de um programa de televisão sobre o segmento rodoviário. Com uma equipe técnica formada só por homens, viajo pelo Brasil para contar histórias de gente que transporta cargas. Já entrevistei centenas de caminhoneiros, talvez mais de mil, e na maioria das gravações sou a exceção em ambientes tão homogêneos. Mas a predominância masculina perde fôlego e a diversidade ganha força toda vez que encontro outras profissionais que, como eu, também saíram de sua zona de conforto para percorrer as estrada do país. De acordo com o Ministério do Trabalho, existem hoje no Brasil 892.142 profissionais com carteira assinada dirigindo caminhão. Deste total, apenas 8.247 são mulheres. 

Ocupar espaços foi o primeiro passo para uma quebra lenta, mas real, de padrões no universo estradeiro. “Quando comecei, quase 30 anos atrás, o guarda me parava e perguntava: ‘Cadê o marido, cadê o marido?’, e eu respondia: ‘Tem marido não, moço’. Mas, aos poucos, a situação tá mudando, as mulheres estão enfrentando tudo”, contou durante uma entrevista a baiana Neuza Sampaio, caminhoneira que conheci em Minas Gerais. Neuza viaja o Brasil todo e já chegou a passar um ano direto na estrada. “Graças a Deus, ao meu trabalho e à minha mãe, que sempre me ajudou, estou formando meu filho na faculdade. Eu amo minha família e amo caminhão”, disse, orgulhosa.

Em um evento para motoristas no Mato Grosso do Sul, uma enfermeira perguntou à paraense Erundina Ribeiro: “Você dirige carreta de verdade? Troca pneu?” Ela rebateu com ironia: “E você acha mesmo que caminhoneiro troca pneu?”, e recebeu um sorriso amarelo que parecia mesclar curiosidade, admiração, estranhamento e desconfiança.

A caminhoneira preparava café na caixa cozinha do caminhão estacionado no pátio do posto quando nos conhecemos. Entre eu, jornalista, e as motoristas que encontro, a identificação é sempre imediata. Estamos expostas aos mesmos e frequentes questionamentos em sutil ou descarado tom de cobrança sobre maternidade, falta de rotina doméstica ou fragilidade física e psicológica em detrimento da competência profissional. 

Desconstruir a narrativa sexista disfarçada de feminismo que costuma conduzir a abordagem sobre o tema na mídia é essencial para promover de forma séria o debate sobre igualdade entre gêneros no segmento rodoviário. No Google, buscar a frase “caminhoneiras não abrem mão da vaidade” significa encontrar vários artigos pautados em clichês que, além de acentuar as diferenças, idealizam um comportamento que destoa da realidade. Ano passado gravei depoimentos de sete caminhoneiras em pátios de postos. Todas estavam sem maquiagem e, como não apareci naquelas imagens, eu também estava. Uma delas, depois da gravação, me enviou mensagem de áudio chorando. Disse que seria motivo de piada se aparecesse na televisão acima do peso e me perguntou onde poderia conseguir uma cirurgia plástica gratuita. “Nós somos unidas. Mas existem algumas caminhoneiras famosas no YouTube que incorporam personagens e não retratam nossa realidade com fidelidade. Criam estereótipos e disputam entre os homens o título de musa das estradas, o que não contribui em nada para nossa luta por igualdade”, me disse a caminheira Rosane Torres, de Santa Catarina.  

As personagens que entrevistei destacaram as dificuldades pontuais do cotidiano profissional, como encontrar banheiros em boas condições de limpeza em postos e terminais de cargas. Para tratar dessas questões práticas e trocar informações, muitas caminhoneiras participam de grupos de WhatsApp restritos para mulheres, formando uma rede de apoio. Entretanto, os diálogos não passam por questões como a equiparação de salário e nem elas estão representadas por alguma liderança feminina.

A caminhoneira Cleuza Banhuk, de Santa Catarina, gosta de fazer viagens longas, de preferência até o Pará. O marido era caminhoneiro até sofrer um grave acidente que o impediu de voltar para a estrada. “Faltava dinheiro em casa, e aí não teve jeito: ele me ensinou a dirigir e eu vim pro trecho trabalhar. A primeira vez que viajei sozinha, me senti livre e independente”, contou. Cleuza, como todas as outras caminhoneiras que conheci, entrou na profissão por influência masculina. Mas, ainda que evitem o termo “feminismo”, as mulheres estão dispostas a promover um movimento por estradas mais plurais onde elas sejam as protagonistas. “Minha filha viajou muito comigo, até engravidar. Eu estava na estrada e não vi minha netinha nascer. Mas é só a neném crescer mais um pouquinho que vai viajar com a vovó”, disse.

Foi justamente por conta da minha experiência nas estradas que participei de uma reunião em uma montadora de caminhões para falar sobre possíveis melhorias estruturais que atendessem mulheres motoristas em viagem. Argumentei que o que determinam as mudanças estruturais são as transformações culturais, e é sobre isso que precisamos falar mais. Em todas as transportadoras onde gravo reportagens, pergunto: quantas caminhoneiras trabalham aqui? Já nos postos de abastecimento, procuro saber quantas mulheres desempenham funções estratégicas. Além de poder dar voz às caminhoneiras durante as entrevistas que gravo, provocar o debate produtivo nos bastidores é uma das responsabilidade que assumi. Não existe empoderamento sem representatividade. 

Se, por um lado, as caminhoneiras reconhecem o machismo, por outro, os caminhoneiros — cujas lideranças manifestaram apoio ao presidente Bolsonaro em diversas situações após a greve de 2018 — costumam ter opiniões variadas durante as entrevistas. Enquanto uns defendem a inclusão das mulheres, outros desaprovam, blindados pelo discurso da proteção e do cuidado.

“Quero que sejamos cada vez mais, que o caminhão represente uma oportunidade trabalho para mulheres como eu. Eu gosto de saber que encorajo outras mulheres. Gosto de ser um exemplo, um espelho. Só não gosto quando duvidam da nossa capacidade. A gente pode fazer tudo o que um homem faz”, disse a caminhoneira Sandra Maria da Silva, de São Paulo. Felizmente, parece que temos novos ventos soprando depois da próxima curva. 

 

Julia Fabri é jornalista, estudante de documentário e há cinco anos trabalha como repórter do programa de televisão Brasil Caminhoneiro. Viajou de carro 23 estados do país para produzir conteúdo. Acredita que retratar mulheres que encontra pelo caminho ajuda a desconstruir o padrão masculino das estradas brasileiras

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