Vida de passageira

Em sua primeira crônica para Hysteria, a atriz Isabel Guéron exalta a liberdade que conquistou ao vender o carro

29.05.2018  |  Por: Isabel Guéron

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Vida de passageira

Há dois anos vendi meu carro. A crise. E todo um contexto em volta te olha penalizado depois que você decide que não quer mais esse símbolo de status e ascensão social. Coitados, tiveram até que vender o carro. Pois eu afirmo, é uma libertação.

De cara posso dizer com segurança que 25% da burocracia da minha vida adulta foi embora junto com meu Fiat Idea. Não tenho mais IPVA, nem vistoria às 8:25 no Cebolão. Não me relaciono com a SulAmérica. Não faço mais aquele exame médico de mentira. Não fico procurando vaga por 15 minutos, arriscando perder o filme, e nem vou fazer 30 horas de aula pela internet para renovar minha carteira. Não preciso mais negociar com o guardador, não me preocupo se parei longe nem se vão arranhar minha lataria. Não sei onde estão os pardais, o preço da gasolina, o valor da multa. Não vou precisar fazer rodízio de pneus e nem verificar a suspensão. Me lembro o prazer que senti ao assinar o último documento. Depois de 20 e poucos anos de uma relação conturbada, me separei do Detran.

De todas essa mudanças, sair da caixa refrigerada e protegida com insulfilme foi a mais interessante. Me joguei no transporte público como não fazia desde a adolescência. Eu tinha me esquecido como as pessoas são interessantes. Os desconhecidos. As pessoas comuns. Eu sou comum, sou mais uma. Eu faço parte da cidade. Eu preciso me levantar quando chega um velhinho, eu entro na fila para recarregar meu cartão, eu já aprendi que pra pegar o BRT direto do metrô tem que subir pela plataforma C.

A vida sem carro te joga na multidão sem delimitar um espaço especial só pra você. Eu, no transporte público, não tenho privilégio algum, a não ser que estivesse grávida, ou daqui a uns 20 anos, talvez, se não acabarem com o passe livre junto com a aposentadoria. A vida de transeunte, de pedestre, de passageira pode ser bem divertida. Sobretudo se tem lugar para sentar. No metrô, por exemplo. Impossível andar mais de quatro estações sem a oportunidade de um pequeno show. Tem de tudo: voz e violão cantando MPB; tem uma turma do chorinho, que fica no instrumental, e ainda jovens dançarinos de hip hop, que preferem o horário mais vazio, quando o vagão vira uma pista em movimento ao som de um bit muderno vindo de uma caixinha JVC. Depois do show passam o chapéu, o gorro, a caixa do cavaco, dependendo do artista. Quando eu tenho um trocado eu dou. Me identifico com eles. Penso que na crise o artista é o primeiro a se reinventar, me dá até uma vontade de chorar, essa resistência. E eu fico com pena de quem não tem essa alternativa, fazer um show no metrô.

Outro dia sentei de frente para uma mãe, sua filha e a filha da filha. A mãe devia ter a minha idade, a filha aparentava ter saído da adolescência com a chegada daquele bebê. Tinha tanta força naquele trio

E tem as pessoas silenciosas. As que entram com seus pensamentos secretos, o olhar absorto. Eu reparo. Reparo muito. Se eu pudesse passaria o dia só prestando atenção e alimentando meus devaneios. Sim, meu pensamento voa, cria histórias inteiras para um rosto eventual que me chama a atenção. Semana passada a moça arranjou um lugarzinho no canto e sentou bem na minha frente, alguns corpos entre nós. Abriu a mochila, tirou seu celular, leu uma mensagem ou viu uma foto e começou a chorar. Quietinha, escondida dela mesma, chorando. Eu fiquei de longe, uma vontade de dar um abraço. No meio do choro entrou um velhinho, a moça levantou e cedeu lugar. Quem será que faz chorar uma moça capaz de ceder seu lugar no meio do seu choro? Por que não fizeram uma cadeira especial para quem precisa chorar sossegado no metrô?

Outro dia sentei de frente para uma mãe, sua filha e a filha da filha. A mãe devia ter a minha idade, a filha aparentava ter saído da adolescência com a chegada daquele bebê. Tinha tanta força naquele trio. A mãe parecia estar indo para o trabalho; a filha, de uniforme da rede pública, ia deixar a menininha na creche antes de ir pra escola. Deve ter retomado os estudos depois de ser mãe adolescente. Fez questão de seguir seus planos mesmo com aquela responsabilidade. Deve ter sido o apoio da mãe. Que de tão jovem provavelmente foi mãe adolescente como a filha. Seguiam, as três, juntas. Duas estações depois, em Botafogo, entrou uma senhora. Uns 70 anos, gorduchinha, agarrada na bolsa. Entrou, sentou-se e eu reparei. Um sapato diferente em cada pé! Duas sapatilhas, chiquezinhas até. Ambas combinavam com a roupa que ela usava. Fiquei alguns minutos da viagem ocupada com aquela questão. Será que ela percebeu? Será que na dúvida entre qual usar resolveu assim, uma em cada pé? Ou ela nem tinha reparado? Teria sido um erro ou ela fez de propósito? Estaria a senhorinha se divertindo às custas de pessoas caretas como eu, que insistem em calçar sapatos iguais mesmo querendo seguir vários caminhos? Talvez. Ela saltou logo, uma pena. Quantas coisas teria me ensinado com seu desprendimento. Decidi que daqui a uns anos quero ser essa senhora.

E ainda vivo os encontros. Os conhecidos. Sim, por duas vezes neste mês foi no metrô que eu resolvi afetos atrasados. Um amigo querido da faculdade, nove estações de conversa e duas boas ideias. E ontem, minha afilhada. Linda, trabalhadora, na fila do bilhete. Rimos juntas, nos abraçamos no vagão, retomamos os planos da peça que queremos fazer. A gente nem quis sentar quando vagou espaço, surfando que estávamos naquele trem. Ao nosso lado uma mulher se divertia segurando sua sacola de plástico, que ficou presa pelo lado de fora em Copacabana e agora só ia abrir daquele lado de novo na Cinelândia. Cheguei na minha praça, ela seguiu pra Tijuca. Peguei o integração e mergulhei no meu mundo particular.

9 Comentários

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9 respostas para “Vida de passageira”

  1. renata joca disse:

    Ah, Bel! Adorei o texto! Sábia decisão. Não chegamos nessa parte, botando a conversa em dia, mas já começamos a adesão a esse movimento também.

  2. Aliete Cunha disse:

    Eu poderia ter escrito isso. Mas não seria tão bem escrito. Obrigada, Isabel.

  3. Marina Duarte disse:

    E eu chorei quando li que a moça chorou ao ler ou ver a foto no celular. Pq seria o meu choro? Acho que ela, como eu, estava na TPM.
    Ass. Júlia que está logada no Facebook da mãe e não sabe por qual razão.

  4. Isabel Guéron disse:

    Que alegria ter leitores!!! Obrigada.
    Beijos. Isabel.

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